Todos os dias pela manhã um rapaz ia ao trabalho, que para ele não era muito bom, era agricultor.
Durante o trajeto ele reparou em um senhor que tirava sempre fotografias do campo, das flores, dos rios, das plantações, enfim, de tudo que existia na área. Fazia isso todos os dias sempre no mesmo horário.
Depois de duas semanas o rapaz resolveu perguntar ao senhor por que ele passava horas fazendo isso, e os dois começaram a conversar:
-Sempre que passo por aqui, a caminho do meu trabalho, vejo que o senhor está tirando fotos e mais fotos desta paisagem. O senhor trabalha para alguma revista ou jornal ligado ao campo?
-Não.
-Faz algum tipo de pesquisa científica?
-Não exatamente.
-Então o que faz por aqui?
-Tiro fotos.
-Isso eu já percebi, mas se não existe nenhum motivo prático, pra que?
-Não acho que tirar fotos sem ser para algum tipo de trabalho seja sem “motivo prático”.
-É que eu, por exemplo, venho todos os dias para a roça e acho que se não ganhasse algum dinheiro jamais faria isso.
-Quando você trabalha meu jovem, você repara nas coisas a sua volta?
-Sim, reparo.
-E como você as vê?
-Como todos os dias.
-Está vendo, é por isso que tiro fotos, para mostrar a mim e aos outros que existem tantas coisas no mundo que as pessoas não reparam. Todos os dias estas mesmas paisagens mudam, mas ninguém repara, só através destas lentes é que podemos constatar isso.
-Não me parece que tudo mude sempre. Há dez anos que eu trabalho e vejo sempre as mesmas coisas, as mesmas injustiças, o mesmo desprezo dos homens pela natureza.
-Está vendo esta flor?
-Sim.
-Ontem ela não estava tão aberta, assim como aquela árvore não tinha o mesmo número de folhas, aquela pedra não estava naquela posição no rio, e amanhã, com o fluxo da água ela deve estar em outro lugar.
-Mas de que adianta reparar nestas pequenas coisas, se o mundo não muda?
-É aí que você engana, meu rapaz. Através destas pequenas mudanças que eu focalizo com a lente desta máquina, eu também percebo as mudanças que o tempo faz em cada um de nós. Se você reparar, você não será o mesmo amanhã, se você pudesse amanhã se vir hoje.
-Isso é possível através da fotografia?
-Sim, mas não só. Nós temos uma coisa que não pode ser captada só pelas fotos. Se as flores mudam, nós podemos constatar isso na hora, mas nós temos o nosso sentimento, o nosso raciocínio, e isso não pode ser captado apenas na foto.
-Então, para que ficar olhando fotos dos homens e mulheres se não podemos perceber mais nada além dos traços do tempo no nosso corpo?
-É que as pessoas não sabem olhar “além da foto”.
-Como assim?
-As expressões, o ambiente, os gestos, os risos, as lágrimas, tudo isso está escondido atrás do que poderia ser uma simples foto.
-O senhor está querendo me dizer que nós podemos conhecer muito da pessoa apenas em uma fotografia?
-É claro que para se conhecer uma pessoa não basta uma foto, não basta um contato, uma conversa, na verdade nada adianta se a própria pessoa não se conhecer direito. O que eu quero dizer é que as pessoas não dão valor as pequenas coisas que podem ser reveladas não só na fotografia, mas também por ela.
-Bom, agora tenho que ir trabalhar. Muito obrigado, não sei se lhe entendi, mas gostei muito de conversar com o senhor.
-Adeus, meu rapaz, bom trabalho.
Após três meses o rapaz soube que aquele senhor havia morrido, e resolveu ir até a casa dele.
Chegando lê viu todas as fotos que ele havia tirado durante esse tempo, e recordou daquela conversa, de tudo que ele lhe havia falado, pensou no rio, nas pedras, quando, de repente, viu uma foto sua e percebeu o que não tinha percebido antes, que ele também havia mudado. Sua expressão estava mais amena e ele estava mais feliz com o seu trabalho, já que agora ele admirava as frutas nascendo, amadurecendo, os pássaros, a colheita, enfim, tudo o que se passava ao seu redor.
Ele percebeu o que o senhor estava tentando lhe explicar, que não é preciso uma máquina, mas sim que transformemos, todos nós, nossos olhos em lentes que passam a registrar os momentos bons e maus, para que a cada cena possamos aprender mais com as mudanças que passam desapercebidas pelos olhos cegos dos que não querem enxergar.
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Há 15 anos
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